EXEMPLOS DE SITUAÇÃO DE AULA EM ARTE-EDUCAÇÃO NO AMBIENTE INFORMATIZADO: (estes registros foram realizados durante as sessões de interação no ambiente informatizado)
Facilitadora = Fa – professora / facilitadora que orienta o aluno e faz os registros da sessão com suas próprias observações sobre o processo.
Nome: Bru Sessão: 21ª
Data de nascimento: 29/09/87 Idade: 12 anos e 3 meses
Este diálogo registra um processo de criação coletiva elaborada pelos sujeitos-aprendizes, que consistia numa produção gráfico-plástica-digital iniciada por um deles e que seria retrabalhada em seqüência por todo o grupo. Assim, o grupo decidiu chamar este trabalho de "seqüência" . A situação que se estabelece aqui revela as interações entre arte educador e sujeito aprendiz ao analisar a produção e os conceitos que este evidencia.
Descrição do encontro:
Fa – O que tu achaste do resultado da seqüência?
Bru – Ficou legal.
Fa – O que é legal para ti?
Bru – Uma coisa fácil de fazer, bonita assim criativa, isso!
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Bru define o conceito de criativo como algo "bonito"
Fa – Tu achas que modificou muito a imagem da primeira para a última?
Bru – Ih! Não dá para reconhecer.
Fa – Se tu tivesse que fazer uma seqüência, tu faria igual ou diferente?
Bru – Eu acho que faria diferente!
Fa – O que tu farias diferente?
Bru – Eu "mexeria" em mais coisas no computador e colocaria na imagem.
Fa – Tu usarias os mesmos efeitos?
Bru – Poderia pegar um e usar outros também.
Fa – Porque?
Bru – Porque além de serem criativos são coloridos, atraem a visão, se espantam quando outra pessoa vê.
Novamente Bru emite seus conceitos sobre a necessidade da obra ser "criativa" e de são características importantes "atrair a visão"e "causar espanto nas pessoas".
Fa – O que tu mais gostaste neste trabalho?
Bru – Da minha criatividade dos meus colegas e da minha também.
Fa – O que é criatividade?
Bru – Saber modificar a figura, botar coisas junto com a figura. Por exemplo eu peguei a imagem da Simone e coloquei borboletas. Eu botei um efeito que não deixou nítido.
Bru define o que, no seu entender, é ser criativo usando uma tecnologia digital: 1- "saber modificar a figura" (procedimentos de utilização da máquina – o saber como fazer da interação no ambiente tecnológico); 2- "botar coisas" ( procedimentos de busca, seleção, desconstrução e reconstrução de imagens); "botei um efeito" (jargão técnico de utilização do programa – software – utilizado que permite alterar imagens utilizando "efeitos").
Fa – E se tu não tivesse uma figura para modificar o que tu acha que é criatividade?
Bru – Botar uns quadrados, círculos e colocar cor, botar pequeno e grande.
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O sujeito refere-se a criatividade com referência aos processos de interferência e a Facilitadora retorna o questionamento sobre o conceito de criatividade, quando novamente surgem definições do sujeito quanto ao que é criatividade: 1- usar formas diversas; 2- usar cores; 3-usar tamanhos diversos nas formas.
Estes diálogos revelam uma (pseudo)necessidade evidenciada pelo sujeito, de que o Fazer em arte para ser "bom" deve enfatizar de modo preponderante o seu aspecto formal e, para que isto se materialize, este deve apresentar-se com elementos que relacionam forma, cor e proporção. Sabe-se que estes aspectos se ampliam/modificam no ambiente de simulação das imagens de síntese.
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Fa – Como você faz uma figura?
Bru – Começo pensando. Penso, analiso se vai ficar bem no papel.
Evidencia-se aqui a relação que estamos buscando estabelecer neste estudo que é, justamente, a imbricação entre Fazer e Compreender. A evidência dos processos educacionais em arte no ambiente informatizado revelam tanto a possibilidade de um Fazer que se abre para possíveis quanto um Compreender que revela as regulações necessárias ao Fazer nestes ambientes.
Facilitadora = Fa – professora / facilitadora que orienta o aluno e faz os registros da sessão com suas próprias observações sobre o processo.
Nome: Ric Sessão: 33
Data de nascimento: 15/12/87 Idade: 11 anos e 7m.
Fa – "Vamos lá, vamos investir na qualidade das imagens! Não adianta só usar efeitos se você não capricha na qualidade das imagens".
Ric. falou pouco, ficou um pouco inibido por eu ficar o tempo todo com ele.
Parece que ele não tem uma idéia do que fazer, apenas risca, recorta sem uma finalidade. Mostra-se pouco criativo. O que produz como imagem se assemelha à produção de uma criança pequena
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Ric. se mostra a vontade na investigação pesquisando sites, testando recursos do programa e deixa a desejar na produção.
A professora facilitadora qualifica Ric. Como "pouco criativo" e que só procura "efeitos" no computador.
Instala-se aqui o questionamento maior que é, justamente, a questão da co-autoria da máquina na geração com a neotecnologia digital.
O cada vez maior distanciamento do sujeito de sua produção, no sentido da produção individual e as características específicas das imagens de síntese (Costa, 1995; Machado, 1996; Fabris, 1995, Santaella e Nöth, 1998) leva-nos a investigar o progressivo domínio da lógica dos programas (e estes cada vez mais buscando modelar-se à lógica do usuário) na produção do sujeito cognitivo-criativo.
Como explicar, então, o processo de Ric. que, para sua professora, "deixa a desejar na produção", mas que apresenta resultados como os do trabalho em anexo (Anexo 2a - encontram-se alguns trabalhos de Ric) que evidenciam um Compreender dos processos de desconstrução e reconstrução de imagens, processo criativo com inserção atual na pós-modernidade. (conforme tabela em David Harvey)
Buscando entender estes processos na psicogenética piagetiana, vemos este sujeito em perfeita mobilidade entre o sistema I, sistema presentativo, que busca compreender as realidades e o sistema de procedimentos II, o sujeito psicológico, uma vez que
"um procedimento repousa sobre a crença na possibilidade de um êxito e, as regulações que corrigem ou completam o método visam melhorar as ações empregadas que consistem, por isso mesmo, em atualizações no interior de um leque mais amplo de possíveis" (PIAGET, 1987, p. 59)
No nosso entender, o sujeito cognitivo-criativo ao buscar compreender as realidades poderá vir a abrir este leque para além do domínio cognitivo com a compreensão da dimensão afetiva da apreciação que se agrega a este sujeito. Isto inclui, como parte integrante do seu processo de abertura de possíveis na criação artística e estética no ambiente informatizado, experimentações mediante explorações que incluem conhecimento dos procedimentos dos programas.
Acreditamos que, tanto na produção científica onde o raciocínio lógico-matemático é preponderante, quanto na produção simbólica, as pseudo-impossibilidades, tanto do aprendiz quanto do educador, são constritoras da abertura de possíveis para uma produção criativa.
No caso examinado, a professora / facilitadora declara que só usar efeitos do computador não é "criativo". Ao mesmo tempo, evidencia-se uma pseudo-necessidade, novamente da professora, ao levar o sujeito a ter que buscar entender o que significa "o caprichar na imagem".
O que a professora quer dizer com isso?
A professora parece não compreender este processo de busca como as regulações que o sujeito está fazendo na busca de sua expressão.
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